quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

O amigo do banco

É estranho imaginar aquele banco sem ele. É triste pensar que nunca mais o verei a descer aquela estrada que o conduzia a casa. A esplanada onde ele nunca mais vai estar e a saudação assídua e gentil com que sempre me recebeu. Ele era uma espécie de presença invisível e não creio que ambicionasse ser mais ou menos do que aquilo que era. Aparentemente conformado com o rumo que a sua vida tomou e que o deixou junto da sua família mas numa espécie de existência paralela, sem esposa nem filhos, numa rotina repetida ao infinito. 

Não sei se era feliz, nunca lhe perguntei... Desconfio que nunca ninguém lhe tenha feito essa pergunta. Pior, desconfio que ele respondesse que sim, sem nunca ter sabido o que é realmente ser feliz. E será que eu sei, senhores? Será que eu sei?

"Tá tudo, dentro dos possíveis." era a resposta repetida sempre que lhe perguntava se estava bem. Houve alturas em que quis aprofundar a questão "Então, que se passa?" e ele dizia sempre "Está tudo bem." sem entusiasmo nem amargura, a resposta politicamente correta que não compromete ninguém. Hoje sinto que perguntava por educação (que coisa mais ridícula!) e que ele respondia por cortesia, porque nenhum de nós iria realmente aprofundar o assunto. Hoje sinto culpa. Não fiz, de todo, o que estava ao meu alcance para trazer alegria à sua vida. Na verdade, continuo a não saber o que poderia ter sido feito, mas tenho a convicção de que não o fiz, o que quer que fosse. E sinto culpa. 

Mas não sinto culpa só por mim, não senhores. Sinto culpa por toda a família que, como eu, o deixou viver naquele ram ram de quem não vai a lado nenhum. A família que sempre cuidou dele mas que nunca soube mostrar-lhe o amor que ele merecia ter sentido. Mas deixo aqui uma nota muito importante: ele foi muito amado! Pela família toda! Espero, do mais íntimo do meu ser, que ele tenha morrido com esta certeza: eu sou muito amado! Porque, no fim das contas, das somas e subtrações, o que é que interessa realmente? 

Não somos uma família de afetos mas amamo-nos profundamente! Sou infinitamente grata pela minha família! São o meu pilar, o meu refúgio e o meu conforto.

Há 10 anos, com a morte do último dos meus avós, findou uma geração. Tive noção, naquele dia, de que a geração mais velha, a "próxima", o fim da linha, seria, a partir daquele dia, a geração dos meus pais. Mas eles ainda eram tão jovens que o assunto ficou arrumadinho numa gaveta bem escondida no meu coração. Mas 2024 decidiu abrir a gaveta, decidiu relembrar-me que "Isto é uma roda que não pára. Não fica cá ninguém. Ninguém!"

2024 saudou-nos da pior forma, com uma morte precoce, desnecessária e sem sentido e carregadinha de negligência e revolta. "Começou a ceifa" dizia o irmão do defunto enquanto aquele era sepultado e desaparecia para sempre da vida daqueles que o amam, cada um à sua maneira. Como nas história infantis, a vida seguia o seu curso normal quando, de repente, ele adoeceu e morreu. Assim, nu e cru, no decorrer de uma semana ele adoeceu e morreu. Pneumonia, disseram. As informações são confusas e pouco precisas: "Foi às urgências.", "É grave, internem.", "Teve alta e está medicado.", "Deve passar em 8 dias.", "Esteve bem o dia todo, comeu bem e tomou a medicação.", "Demos com ele morto.". Todas estas frases são das últimas 24 horas da vida do meu tio F. - a primeira vítima da sua geração, a mesma a que pertencem os meus pais.

Foi o amigo do banco que veio relembrar-me o quão pouco o conhecia, o quão pouco sabia sobre ele e sobre a sua vida. Quando perguntei quem era o senhor que estava com semblante carregado junto ao caixão, a resposta foi simples: "é o amigo do banco". Ele tinha um amigo que esteve com ele até ao fim, um amigo que sofreu profundamente a sua perda, um amigo que o estimava verdadeiramente. Ele tinha um amigo, era o amigo do banco.

O meu único desejo é que estejas em paz.