Depois de um breakdown por não querer comer sobremesas de taça na escola:
- Mãe, tens de dizer à C. que eu não quero comer sobremesas de taça... Não, não digas que eu não quero comer, diz que eu sou alérgica!
Depois de um breakdown por não querer comer sobremesas de taça na escola:
- Mãe, tens de dizer à C. que eu não quero comer sobremesas de taça... Não, não digas que eu não quero comer, diz que eu sou alérgica!
Depois de a avó ter chamado "avô" ao seu próprio marido:
- Vó, tu não podes chamar avô, tens de chamar querido porque ele é o teu namorado!
- Mãe, quando é que tu e o pai vão morrer?
- Não sei, filha. Porquê?
- Para eu ter pais novos.
- Ah...
...
- Filha, isso não funciona assim...
I., a menina descontente.
É estranho imaginar aquele banco sem ele. É triste pensar que nunca mais o verei a descer aquela estrada que o conduzia a casa. A esplanada onde ele nunca mais vai estar e a saudação assídua e gentil com que sempre me recebeu. Ele era uma espécie de presença invisível e não creio que ambicionasse ser mais ou menos do que aquilo que era. Aparentemente conformado com o rumo que a sua vida tomou e que o deixou junto da sua família mas numa espécie de existência paralela, sem esposa nem filhos, numa rotina repetida ao infinito.
Não sei se era feliz, nunca lhe perguntei... Desconfio que nunca ninguém lhe tenha feito essa pergunta. Pior, desconfio que ele respondesse que sim, sem nunca ter sabido o que é realmente ser feliz. E será que eu sei, senhores? Será que eu sei?
"Tá tudo, dentro dos possíveis." era a resposta repetida sempre que lhe perguntava se estava bem. Houve alturas em que quis aprofundar a questão "Então, que se passa?" e ele dizia sempre "Está tudo bem." sem entusiasmo nem amargura, a resposta politicamente correta que não compromete ninguém. Hoje sinto que perguntava por educação (que coisa mais ridícula!) e que ele respondia por cortesia, porque nenhum de nós iria realmente aprofundar o assunto. Hoje sinto culpa. Não fiz, de todo, o que estava ao meu alcance para trazer alegria à sua vida. Na verdade, continuo a não saber o que poderia ter sido feito, mas tenho a convicção de que não o fiz, o que quer que fosse. E sinto culpa.
Mas não sinto culpa só por mim, não senhores. Sinto culpa por toda a família que, como eu, o deixou viver naquele ram ram de quem não vai a lado nenhum. A família que sempre cuidou dele mas que nunca soube mostrar-lhe o amor que ele merecia ter sentido. Mas deixo aqui uma nota muito importante: ele foi muito amado! Pela família toda! Espero, do mais íntimo do meu ser, que ele tenha morrido com esta certeza: eu sou muito amado! Porque, no fim das contas, das somas e subtrações, o que é que interessa realmente?
Não somos uma família de afetos mas amamo-nos profundamente! Sou infinitamente grata pela minha família! São o meu pilar, o meu refúgio e o meu conforto.
Há 10 anos, com a morte do último dos meus avós, findou uma geração. Tive noção, naquele dia, de que a geração mais velha, a "próxima", o fim da linha, seria, a partir daquele dia, a geração dos meus pais. Mas eles ainda eram tão jovens que o assunto ficou arrumadinho numa gaveta bem escondida no meu coração. Mas 2024 decidiu abrir a gaveta, decidiu relembrar-me que "Isto é uma roda que não pára. Não fica cá ninguém. Ninguém!"
2024 saudou-nos da pior forma, com uma morte precoce, desnecessária e sem sentido e carregadinha de negligência e revolta. "Começou a ceifa" dizia o irmão do defunto enquanto aquele era sepultado e desaparecia para sempre da vida daqueles que o amam, cada um à sua maneira. Como nas história infantis, a vida seguia o seu curso normal quando, de repente, ele adoeceu e morreu. Assim, nu e cru, no decorrer de uma semana ele adoeceu e morreu. Pneumonia, disseram. As informações são confusas e pouco precisas: "Foi às urgências.", "É grave, internem.", "Teve alta e está medicado.", "Deve passar em 8 dias.", "Esteve bem o dia todo, comeu bem e tomou a medicação.", "Demos com ele morto.". Todas estas frases são das últimas 24 horas da vida do meu tio F. - a primeira vítima da sua geração, a mesma a que pertencem os meus pais.
Foi o amigo do banco que veio relembrar-me o quão pouco o conhecia, o quão pouco sabia sobre ele e sobre a sua vida. Quando perguntei quem era o senhor que estava com semblante carregado junto ao caixão, a resposta foi simples: "é o amigo do banco". Ele tinha um amigo que esteve com ele até ao fim, um amigo que sofreu profundamente a sua perda, um amigo que o estimava verdadeiramente. Ele tinha um amigo, era o amigo do banco.
O meu único desejo é que estejas em paz.
- Mãe, porque é que temos duas manas?
Hmmmm.... "Só Deus sabe, filho.", "Porque o universo quis pregar-nos mais uma partida!", "Porque sim...", "Não faço ideia!". Podia ter escolhido qualquer uma, mas respondi:
- Porque temos muita sorte! Não achas?
- Sim, porque assim temos uma família grande!
F., o menino que sabe coisas! <3
O anúncio da Wells em que um bebé começa a chorar de noite e os pais, pacificamente, conversam sobre quem vai lá dar assistência e acabam a rir da situação.
Só falta entrar um unicórnio a dizer "não se preocupem, descansem que eu vou lá!".
Ou o próprio bebé gritar, lá do quarto dele, "queridos papás, foi falso alarme; por momentos pareceu-me que o mundo estava a acabar mas já caí em mim e percebi, sozinho, que está tudo bem.".
No outro dia sonhei que o meu mundo estava a acabar. Foi um sonho um bocado rebuscado e com personagens de origem incompatível, mas até acho que o meu subconsciente teve ideias inovadoras em relação a um possível ataque informático! (Boa subconsciente!) As ideias perigosas têm de vir de algum sítio, não é?
Só me lembro de um bocadinho dos acontecimentos trágicos, que passo a relatar.
Estava num evento qualquer, sem os meus filhos, na companhia de um antigo chefe e da sua querida esposa. Não sei o que estávamos a fazer, nem sei porque estávamos ali mas, de repente, a Dona P. (a esposa do antigo chefe) olhou para uma revista do evento e viu lá a imagem de um busto esculpido e, no momento em que ela, em pânico, nos mostrou aquilo, soubemos todos, imediatamente, que ia haver um atentado naquele evento. Que aquele era "O" evento do atentado. Pelos vistos, era do conhecimento geral que a escultura da imagem era o símbolo que representava o atentado.
Fiquei em pânico e pensei imediatamente em ir buscar os meus filhos para fugir. E onde andavam as crianças? Tinha-as deixado com o meu irmão, num sítio qualquer a que só conseguia aceder de elevador. Ali estava eu, completamente em pânico, a carregar no botão do elevador, quando me lembrei que podia ligar ao meu irmão!
E foi aqui que se deu a ideia inovadora!
Quando peguei no telemóvel para lhe ligar, em vez de números para introduzir o código de desbloqueio, aparecia um botão a dizer "disparar"! Se tentasse mexer no meu telemóvel faria alguma coisa disparar!! (Embora fosse morrer dali a nada, percebi, ainda durante o sonho, que ali estava uma ideia inovadora!)
Ainda no sonho, vi projéteis em modo de voo para nos atingir, mas não fiquei lá tempo suficiente para ver o fim. Acordei um bocado em pânico, mas viva! Ufa!
Talvez esteja afetada pelos relatos de guerra que nos entram em casa diariamente mas a verdade é que tenho sonhos deste tipo há muitos, muitos anos! Tenho uma imagem bem nítida, na minha cabeça, da minha terra natal a ser atingida por mísseis, ali no descampado, onde agora é o largo da feira, enquanto eu me tento salvar abrigando-me debaixo do edifício jardim (sim, este post tem informações só acessíveis a alguns).
Espero que isto seja menos premonitório do que chalupice!
Se podia sonhar com prados verdejantes e com o calor do sol a bater-me no rosto acariciado por uma brisa morna e perfumada? Podia, mas não era a mesma coisa.
Com cara de mau, zangado comigo porque eu o estava a obrigar a secar-se com a toalha depois do banho:
- Tu não andaste comigo na escola!
Ignorei-o. Manteve-se firme:
- Olha que tu não andaste comigo na escola!
Depois de pensar um bocadinho e já com um ar normalíssimo:
- Oh mãe, porque é que tu não andaste comigo na escola?
F., um gajo mau em formação.
Acabei de me aperceber de que 98% das fotos que tenho no telemóvel são dos meus filhos.
Só queria uma foto nova de perfil para o whaza...
Após ter-se magoado sozinho a subir para a cama dele:
- Mãe, magoaste-me, viste? Parabéns, mãe, fizeste um lindo serviço!
F., macaquinho de imitação
No regresso a casa, após uma ida às urgências por ter acordado cheio de tosse e com a respiração alterada:
- Mãe, eu ontem adormeci na minha cama e acordei e pensava que tinha uma tosse linda e afinal...
(Afinal era uma tosse feia!! Hahaha)
F., o contador de histórias
Um dia aleatório:
- Mãe, olha ali um escritório de comida!!
(Era um Burger King...)
Outro dia aleatório:
- Fomos comprar pipocas ao escritório de comida!
F., o menino alérgico que não come em restaurantes.
De manhã, antes de ir para a escola, enquanto eu lhe digo constantemente para se despachar porque estamos atrasados:
"Mãe, hoje não estou com paciência p'ra ti."
F., o mini adulto
(sobre a beleza dos meus olhos nas fotos do dia do meu casamento)
- Mãe, aqui estavas com estes olhos e agora estás com esses olhos de zombie...
F., a assentar os meus pés no chão desde 2018.
- Mãe, essa camisola às riscas não é bonita...
- Não gostas? mas tem brilhantes e tudo!
- Tem brilhantes mas eu não gosto.
F., fashion adviser.
Neste post vou conta-vos a bela história do chefe que me disse que o meu filho, de 18 meses, não era desculpa para eu ter baixado a minha produtividade enquanto estava em teletrabalho, durante a quarentena.
O mesmo chefe que me permitiu que fosse para casa, quando lho solicitei, porque ele era completamente contra as pessoas irem p'ra casa, uma vez que "isto foi um alarmismo infundado e eu estive sempre a trabalhar no escritório e até fui a reuniões fora e nunca me aconteceu nada" "e corri riscos por todas as pessoas - esses oportunistas - que foram trabalhar para casa".
A empresa não permitia que levássemos os computadores portáteis para trabalharmos em casa porque tinham de ficar na empresa ligados à rede (é um conceito diferente de "portátil", eu sei), pelo que fui para casa trabalhar no meu pequeno - literalmente - portátil e sem um único equipamento da empresa. Durante toda a quarentena usei o meu computador e telemóvel pessoais para trabalhar.
Como, na altura, estava com dois concursos públicos em mãos preparei-me para conseguir trabalhar - comprei um amplificador de sinal e isolei-me num quarto para não ter o meu filho sempre ao meu lado a suplicar por atenção. Mas, ainda assim, tive imensas dificuldades com a ligação à distância à rede da empresa. Era desesperante a lentidão da ligação. Quando lhe falei sobre isto ele simplesmente respondeu "mais ninguém tem esses problemas por isso deve ser aí da sua rede...". Útil e produtivo, portanto. Eventualmente, percebi que havia alturas do dia em que a ligação ficava super lenta, por haver demasiadas ligações, e que efetivamente era mais rápido trabalhar na sala, onde o meu filho passava o dia.
Percebemos que não íamos conseguir apresentar preços competitivos para os concursos, pelo que ele me disse "despeje aí uns preços, só para respondermos.". Mas os concursos públicos são mais do que preços, e não estávamos a falar de empreitadas simples - era um estádio e infra-estruturas em 2 ruas super movimentadas numa cidade. Esforcei-me por colocar preços mais ou menos adequados na lista de quantidades e por produzir toda a documentação necessária para o concurso. Demorei imenso tempo, confesso, mas as coisas foram mais ou menos bem feitas. Dadas as condições de trabalho, a coisa até correu bem. Foram os meus primeiros concursos públicos naquela empresa e quem conhece os processos dos concursos públicos sabe que podem ser bem complexos e extensos.
Depois de algumas chamadas de vídeo menos agradáveis, um dia ligou e disse que precisava de falar comigo "quando pode passar cá?" - tive a certeza de que ia ser despedida - fui à empresa nesse mesmo dia, ainda em plena pandemia, para ter uma conversa surreal, à qual nem soube reagir. Vou resumir em alguns tópicos 1 hora de monólogo do meu chefe:
Por muita experiência "chefes intragáveis" que uma pessoa tenha - e eu até sou uma pessoa bastante batida nesta matéria - acaba sempre por ficar surpreendia e por sentir que é uma nódoa.
Saí de lá e vim chorar para casa. Não me bastava passar o dia a ignorar o meu filho de 18 meses que estava constantemente a pedir atenção e estar a trabalhar em condições péssimas, ainda tinha de levar com aquilo. Decidi sair da empresa. Assim, mesmo a meio de uma pandemia e sem perspetivas em vista. Já tenho experiência suficiente para saber que, a partir dali, o caminho é sempre a descer e o destino é, no mínimo, uma crise de ansiedade.
Quando fui informa-lo de que ia sair da empresa, depois de ter surgido uma oportunidade de trabalho, ele disse-me que não era aquilo que queria para mim, que achava que eu tinha imenso potencial para vir a ser uma ótima orçamentista e que tinha muita pena que eu fosse embora. Subtilmente, fui-lhe dizendo que ele me tinha dito coisas que não se dizem e que tinha, até, ameaçado mandar-me embora, pelo que fui pondo pés a caminho - "ah, mas isso é uma forma de expressão..." - sim, isto também é .|.
A minha parte preferida da conversa:
- Vai para uma empresa maior?
- Não. (Vou para qualquer outra empresa onde você não esteja...)
- Mas vai ganhar mais?
- Não. (Vou ganhar menos e estou mesmo feliz na mesma. Agora pensa...)